quarta-feira, 24 de agosto de 2011

soh por postar

Vou tentar manter esse blog minimamente digno e postar com mais frequência, como disse a Olévia, nem que seja um video.
Entao: ESSE VIDEO EH OTIMO! Se chama "historia das coisas", e propoe uma reflexão sobre nossos hàbitos de consumo e nosso papel na cadeia produtiva. Pode parecer meio que "consciência ambiental para principiantes", mas o bacana dele é, exatamente, a simplicidade.


Notem que hà uma critica à forma como os paises desenvolvidos se aproveitam do "terceiro mundo" como se fosse o quintal deles. Eh uma pena que seja abordado tao pouco (ao mesmo tempo, nao é exatamente o foco principal do video), mas é algo serissimo... esses dias vi uma reportagem sobre a compra de grandes extensoes de terra em Moçambique, algo que provavelmente vai prejudicar muito as pessoas que trabalhavam hà décadas nessas terras, e os compradores eram, tchan-tchan, fucking brazilian landlords. Hà casos de universidades americanas praticando a mesma coisa. Mas o Brasil é fueda né? Um pais que sofreu sendo quintal alheio e que soh espera a primeira oportunidade pra fazer um quintalzinho num pais mais fraco.

Mas enfim, voltando ao foco, vejam o video :)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

french navy


Um dia vou conseguir escrever sobre minha relaçao de amor e odio com a França. Mas morando aqui, algo em relaçao ao qual eu realmente adquiri afeto foi a lingua francesa. Eu nem sei explicar, pq eu sempre preferi o italiano, e nao acho o francês super bonito nem "sexy", como muita gente. Mas eu amo falar francês, amo qua
ndo dizem que falo bem, apesar da eterna frustraçao de que é bem pouco provàvel que eu venha, um dia, a falar como uma francesa - sem sotaque*. A primeira vez que eu vi um sentido em estar aqui - e na época, trabalhando de babà - foi quando começadram a elogiar meu francês; foi como se, finalmente, esses meses em terra estranha com gente esquisita valesse alguma coisa: se nada der certo, eu falo francês! Claro que a coisa se dà em camadas e "niveis" de linguagem - se me botarem pra conversar com um malaco, que soh fale girias, eu vou ter dificuldade pra entender o que ele fala. Mas enfim, existem bem poucas coisas que a gente pode falar que aprendeu definitivamente, de uma vez por todas, sem precisar se aperfeiçoar. Ademais, esse é também o charme da lingua francesa: à primeira vista, muito "dura", muito formal, cheia de nuances e frescuras - mas, ao mesmo tempo, cheia de invençoes, de girias, de subversoes. Eu acho que as expressoes àrabes sao uma forma de subversao à lingua oficial, uma demonstraçao de que as dinâmicas sociais sempre escapam ao controle de fronteira. Ao mesmo tempo, sao também um indicio da nao-integraçao dos imigrantes; uma das minhas palavras preferidas, em francês, é bled, que vem do àrabe
"casa", e que eles - imigrantes e descendentes - usam quando dizem que vao pro pais de origem: "vou passar minhas férias no bled". Ou seja, de certa forma, a ligaçao com esse lugar de origem é forte - é a "casa" - pq eles nao se sentem integrados. Mas isso é outro assunto. Também adoro clebs (cachorro), que também vem do àrabe. E pra nao dizerem que eu fico puxando sardinha pro meu devir marroquina, também adoro mytho, mentiroso, que na verdade é abreviaçao de mythomane: mitômano. Parece palavra dificil, mas todos os adolescentes falam, e eu acho hilàrio: "você nao passa de um mytho!"

*Em relaçao aos sotaques. Uma vez um professor - de inglês - alertou a turma pra pronùncia de tal palavra (nem lembro qual), dizendo que, se a gente a pronunciasse de tal forma, as pessoas imediatamente saberiam de onde a gente é. Dai eu pensei, poxa, qual o problema disso? Eu tenho orgulho de onde eu venho. Quando os alunos no colègio riam de algum erro, eu repetia a mesma coisa - eu tenho orgulho de ser estrangeira. Mas é inevitàvel me sentir frustrada por às vezes confundir "in" e "an" - eu acho o som super parecido (foneticamente: [ɛ] e [ã]), mas pra eles é super diferente. E, pessoalmente, eu acho sotaque desleixado muito feio.


O outro lado da moeda é que os franceses tendem a achar que a lingua é deles, e que o sotaque é dos outros: dos canadenses, por exemplo, ou dos descendentes de imigrantes - que nasceram aqui e muito francês tem a coragem de comentar que ele tem um "sotaque estrangeiro" - se ele nasceu aqui, e se ele tem o francês como lingua-mãe, dizer que ele tem sotaque é o mesmo que retirar o direito dessa pessoa a ter uma lingua. E a lingua é dinâmica, ela nao é de ninguem, como pensam os franceses em um eterno delirio narcisista. Eh digno de nota que, quando um francês quer te atacar sutilmente, seja por brincadeira, seja por provocaçao, seja por maldade, ele te ataca pela lingua: "isso que vc disse nao é francês" (e muitas vezes EH, e eles dizem que nao pq sao fdp mesmo).


Mea culpa: eu jah utilisei o francês como forma de exclusão social, com uma menina que eu nao tinha ido com a cara. A sujeita vira pra mim e diz "eu jamais viria de au pair, trabalhar de mao de obra barata", soh faltou um "eca!". E como estàvamos entre franceses, e ela tinha chegado a pouco tempo, passei o tempo todo falando francês, o que de certa forma fez com que as outras pessoas também falassem (embora soubessem português), e ela ficou boiando na conversa

Mas ela mereceu.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

quando tudo vira desculpa

Mudei de tema de mestrado pq o tema anterior era teorico demais, e além do mais eu nao conseguia mais ficar falando de uma "França revolucionària" que hje nao é mais a sombra de si mesma. Um novo tema, que nao tinha nada a ver com o que eu tinha estudado antes, que era quase uma outra àrea, com bibliografias BASICAS que eu nunca tinha lido e referências que eu ainda sequer conheço. Leituras que nao me deixavam ler direito as leituras indicadas nas minhas aulas, e nossa, eu tenho muitas aulas, e trabalho ao mesmo tempo. Jah deu pra perceber que eu tô me fazendo de coitada? Dai assim, nossa, eu nao devia ter mudado de tema pq 1 ano é muito pouco pra fazer uma boa dissertaçao, e ademais tinha 3 anos que eu estudava o tema anterior! E nossa, pensando bem a academia é uma b** mesmo, quê que eu tô fazendo aqui, olha esse povo que vive numa bolha e que nao entende nada da vida real. Tudo isso é culpa da nossa forma de construir o conhecimento, e como assim ainda se fala em universalismo?, esses teoricos franceses falam muito dificil, é um saber produzido para se auto-reproduzir. E olha essas teorias sobre o sujeito? O sujeito soh pode ser aquele que nasceu na modernidade, capaz de reflexividade e etc... quer dizer que nos, bonitoes da bala chita, somos os unicos a produzir reflexao sobre nossa propria sociedade? *dai eu começo a namorar a antropologia e a arrumar desculpas pra ler Sahlins ao invés de ler o que eu jah deveria ter lido hà um mês atràs*.

Pensando bem, a culpa é do Ocidente. E olha ai o Sahlins pra concordar comigo!

Foi tudo um grande erro. Minha modesta conclusão é que a civilização ocidental tem sido largamente construída sobre a idéia equivocada da "natureza humana". (Por favor, desculpem; foi tudo um erro.) É provavelmente verdade, todavia, que esta idéia equivocada da natureza humana ponha em perigo nossa existência.
(Sahlins, 2007)

Esse mau-humor que se retroalimenta é uma maneira de lidar com a crise de "o que eu faço depois desse mestrado?", mas tb nao é soh isso, é tb um enorme saco-cheio de faculdade, aula, leituras por obrigaçao, e de um sistema que eu vejo cada vez menos como o meu. Dai eu penso em mim mesma aos 18 anos e meu discurso "eu nao vou fazer o que dà dinheiro, eu vou fazer o que eu gosto" e penso no que aconteceu de là pra cà. Talvez o que aconteceu é que o capitalismo tenha vencido (no caso, me vencido). Ou que nao quero dinheiro, eu soh quero amar seja um privilégio pra poucos, detentores de capital (seja aquele, econômico mesmo, seja aquele, acadêmico, das pessoas que parecem seguir trajetorias retilineas e sem desvios na universidade. Claro que muitas vezes os dois estao juntos, mas nem sempre). Ou talvez o problema nao seja aquela môme de 18 anos, mas esta de 25.

E eu nao sei como terminar esse texto, nem essa questão, tao interminàvel, et alors?

terça-feira, 31 de maio de 2011

you have a different opinion and that (should be) ok

Dia desses fui na casa de uma amiga franco-marroquina - e musulmana - que trabalha comigo, junto com outras colegas, uma delas franco-maliana e a outra francesa ("e soh"). Là pelas tantas, inevitavelmente, começou um debate sobre algumas idéias musulmanas - principalmente sobre a questao da mulher. Mas primeiro vamos dar nome aos bois, pelo menos aos personagens principais: vou chamar a franco-marroquina de N. e a francesa-bretona de G., pq seria mto toscao usar soh o referente nacional pra falar disso. G se co nsidera feminista, até ai tudo bem - eu partilho muitas das opinioes dela. O que me deixou meio que impressionada foi a maneira como ela se recusa a aceitar que N tenha uma visao diferente dela no que concerne conceitos bàsicos como "liberdade" e "igualdade", pra citar os chavões franceses. O que eu vi na conversa delas foi um ranço enorme de neocolonialismo que existe na cultura francesa. Pq o papo de "eu sou mais livre do que vc pq eu sou atéia e feminista" é super escorregadio, e dai pra "meus valores ao melhores dos que os seus" é um pulo (bem pequeno). Eu defendo valores que sao meus (e que sao inevitavelmente encharcados de pensamenos ocidento-centrista e euro-centrista) mas eu me sinto capaz de aceitar o fato de que alguém pode ter uma idéia do mundo totalmente diversa da minha, sem pensar que a evoluçao/ progresso natural da humanidade vai levar essa pessoa a pensar como eu. E principalmente, quem sou eu pra julgar os valores culturais dos outros? Eu sei que isso tomba pro relativismo, e isso é meio que inevitàvel - mas entre o relativismo e o universalismo, qual a melhor nuance? Eu me recuso a crer em papos do tipo "olha, minha filha, isso que vc chama de pudor, eu chamo de submissao... vem aqui que eu vou te emancipar, vem". Universalismo é tao perigoso, e a filosofia politica nao largou o osso até hoje - o que dà uma sensaçao de que academia nao serve pra nada mesmo. Serà que nao dà pra pensar uma forma de relativismo que seja rigida em relaçao a valores bàsicos? Sei là, multilar mulheres (soh pra citar um exemplo) nunca vai ser algo que eu venha a defender. Entao é complicado - como qualquer posiçao que tenda a um extremo.
Por falar em extremos, os da conversa foram bem estranhos. N sabe muito bem se defender, e a partir de um certo momento (acho que de saco cheio de G ser incapaz de tentar entender algo sem impor suas proprias categorias), disse algo como "ok, vou falar da mesma maneira que vc entao: todas as ocidentais sao putas, piranhas. Se vc acha que o que é diferente de vc é submissao, eu acho que o que é diferente de mim é putaria". Claro que ela nao tava falando sério, mas foi uma forma caricatural de mostrar que o "universalismo" tb pode existir do outro lado, ora bolas. Enfim, G apelou um pouco e chorou (!) e quis ir embora (!!) mas depois ficou tudo bem. Mas essa mania deles, francesinhos, de acharem que seus valores sao universais é foda - vide o fato de que qualquer um deles defenderà ferrenhamente a tal "laicidade" francesa, sem conseguir enchergar o quanto essa laïcidade é muito propria a uma certa "visao francesa" do mundo (que hje deriva pra islamofobia), e nao é, nao mesmo, uma visao neutra em relaçao às religioes.
E fiquei pensando, também (e pela reaçao apelativa dacolega) no quanto minha host estava certa quando me disse que Astérix é A cultura francesa em forma de desenho: a convicçao de estarem certos os leva a nao aceitarem perder. O que nao quer dizer que eles estejam certos de fato, mas que explica o por quê de eles serem tao mal perdedores - em discussoes e em jogos, mas talvez em revoluçoes também. RYZAS.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Faye Valentine

Todo mundo sabe que eu agora (hà uns dois meses) tenho uma gatinha, né? A gente adotou ela quando ela tinha uns 9 ou 10 meses, e agora ela està com quase um ano. No começo ela era meio medrosa/ selvagem (vàrios arranhões no braço pra contar historia), mas ela se acostumou com a gente relativamente ràpido. A Faye é uma fofinha, soh nao se acostuma de jeito nenhum a ficar no colo ou a dormir junto comigo - que é uma das coisas que eu tenho saudade na Sofia, que nao gostava de colo mas dormia comigo debaixo do edredon. Mas nao vou ficar comparando um gato com outro né, cada uma tem uma personalidade diferente. A Faye aparentemente nao tem vocaçao pra gato-pelucia, mas adora um carinho. Aliàs, acabei de passar uns bons 10 minutos com o braço esticado pq ela tinha dormido em cima da minha mao enquanto eu fazia carinho, toda fofinha, e eu fiquei sem coragem de tirar a mão :o)
Suspeito que ela tenha um passado meio mendigo (bifes roubados e pratos lambidos sao alguns dos indicios) mas ela parou de miar insistentemente enquanto a gente come - soh, de vez em quando, sobe em algum movel e fica olhando a comida em posiçao de ataque e com um olhar de tristeza (acho que nessas horas ela pensa "tao perto... tao longe..."). Mas ela mia por razoes que eu nao entendo. Aliàs, de tanto conversar com ela (tento conversar sempre em português pra ela e a Sofia poderem ser amiguinhas quando se conhecerem) ela ficou com mania de dar palpite enquanto a gente conversa; ontem mesmo estàvamos falando dela e, do outro cômodo, ela dava umas miadinhas - super querendo se intrometer no assunto.

Fotenhas: a preto-e-branco, com carinha de "nao fui eu", é a Faye ("Faye Valentine", quando ela està encrencada, mas normalmente é soh Faye)

essa aqui do lado (meio branca-cinza-amarelo) é a Sofia, que ficou no Brasil e que é o unico membro da minha familia que nao tem nome mexicano :)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Home

Trecho de uma carta enviada a Hannah Arendt pelo seu marido - um tal de Heinrich Blücher. Uma coisa linda que eu achei meio que sem querer, no meio de um texto sobre ela.


"I have experienced homelessness, (...) and I could always say ‘Wherever I am, there I am not at home.’ But nonetheless right here in the middle of this world, and not in some superworldly Zion, I have managed to build a home through you and my friends, so that I can also say: Where one or more of you are with me there is my homeland, and where you are with me, there is my home."