terça-feira, 27 de setembro de 2011

versão rugby-supporter-wannabe

Eu amo futebol. Amo o jogo e, acima de tudo, amo a efervescência coletiva que o jogo gera. Quanto ao Rugby, até vir pra França tava mais pra "nunca vi nem comi, eu soh ouço falar". Sei là, nao me interessava. Mas aqui muitas pessoas adoram, e a primeira coisa muito bacana que eu ouvi falar do esporte é que apesar de ser muito fisico, as pessoas se respeitam muito. Tipo, é muito raro ver briga entre torcidas; as pessoas vivem mais um espirito de encher a cara juntos, o que marca uma superioridade incontestàvel em relaçao ao futebol. Nao me perguntem como eles conseguem isso: fazer um esporte visualmente "violento" - pra quem vê de fora e nao entende bulhufas - gerar tanto fair play entre os torcedores.

Mas enfim, entre achar legal e se interessar hà uma certa distância. Eu demorei a realmente querer ver uma partida de rugby, até que me mostraram A coisa mais legal do rugby: o HAKA. Nao saberia descrever o haka em termos precisos, mas é uma forma de desafio ao adversàrio feito por equipes de paises com uma forte tradiçao maori - caso da Nova Zelândia, Samoa, Ilhas Fiji, etc.

Vejam o sensacional haka da Nova Zelândia e entendam pq eu amei esse esporte antes de ter assistido a uma partida sequer:



A Nova Zelândia é a melhor equipe de rugby do mundo. Eles sao conhecidos como All Blacks, pq o uniforme é preto - segundo eles, pq portam o luto pelo adversàrio.
O cara que grita no inicio do haka tem que ser obrigatoriamente um jogador de ascendência maori.
Quando sao duas equipes de tradiçao maori que jogam, uma desafia a outra com seu respectivo haka. Mas quando a equipe adversària nao tem haka, os jogadores assistem lado a lado - eu amo ver as expressoes nao verbais dos dois lados. A cara de desafio dos jogadores fazendo o haka é totalmente excelente.

Fiquei super interessada depois de ver o haka e assisti a alguns jogos, mas o rugby é bem dificil de entender - e se o jogo for ruim, ele pàra toda hora e é super dificil de manter o foco. E existem mil regras. Entao fui tomando gosto pela coisa aos poucos.

E pq eu tô falando disso tudo? Pq tà rolando a Copa do Mundo de Rugby, exatamente na Nova Zelândia, e eles fizeram o um jogo sensacional contra a França que me converteu em fã do esporte de maneira definitiva. Te contar que eu ainda nao entendo a maioria das regras viu, mas dà pra seguir o jogo sabendo como se fazem pontos e quais os principais passes proibidos.

E olha, nessa Copa eu sou Nova Zelândia desde criancinha!



Update:

Outro haka dos all blacks... eles têm dois diferentes, este é mais recente e geralmente usado para equipes com as quais a rivalidade é mais forte.


Sério, como nao amar?!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

I don't want to stay here


Esse é o terceiro post em menos de um mês, o que é um milagre hà tempos não visto. Soh pra continuar com aquela coisa de manter o blog, posto umas fotos do sudeste da França. Mais
especificamente, de Cassis e do mar mais azul que eu jah vi.
Tenho um amigo que odeia afirmaçoes assertativas sobre os lugares/paises/nativos - tipo "Paris EH assim", "Roma EH assado", "os franceses SÃO assim". Convenhamos, a gente soh tem um minimo de embasamento pra falar disso se morar no lugar, mas de forma alguma de tiver ido soh visitar. O que a gente ACHA de um lugar sao soh impressões muito pessoais.
Eu concordo muito com ele. Dito isso, devo dizer que eu amo o sul da França. Com o devido background de "essas sao as impressoes de alguém que soh passou alguns dias por là". Jah tinha ido ao
sudoeste também. O Sol, as cores, as pessoas mais legais... Me fazem sentir que eu fui enganada, que eu cai na cilada de vir pr'um lugar tao cinza cujo verao é mais frio do que o fucking inverno de BH. Dà pra respeitar lugar assim? Não, não dà. Viva o sul e seu verão com temperaturas acima dos 30°C, como deve ser!


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

soh por postar

Vou tentar manter esse blog minimamente digno e postar com mais frequência, como disse a Olévia, nem que seja um video.
Entao: ESSE VIDEO EH OTIMO! Se chama "historia das coisas", e propoe uma reflexão sobre nossos hàbitos de consumo e nosso papel na cadeia produtiva. Pode parecer meio que "consciência ambiental para principiantes", mas o bacana dele é, exatamente, a simplicidade.


Notem que hà uma critica à forma como os paises desenvolvidos se aproveitam do "terceiro mundo" como se fosse o quintal deles. Eh uma pena que seja abordado tao pouco (ao mesmo tempo, nao é exatamente o foco principal do video), mas é algo serissimo... esses dias vi uma reportagem sobre a compra de grandes extensoes de terra em Moçambique, algo que provavelmente vai prejudicar muito as pessoas que trabalhavam hà décadas nessas terras, e os compradores eram, tchan-tchan, fucking brazilian landlords. Hà casos de universidades americanas praticando a mesma coisa. Mas o Brasil é fueda né? Um pais que sofreu sendo quintal alheio e que soh espera a primeira oportunidade pra fazer um quintalzinho num pais mais fraco.

Mas enfim, voltando ao foco, vejam o video :)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

french navy


Um dia vou conseguir escrever sobre minha relaçao de amor e odio com a França. Mas morando aqui, algo em relaçao ao qual eu realmente adquiri afeto foi a lingua francesa. Eu nem sei explicar, pq eu sempre preferi o italiano, e nao acho o francês super bonito nem "sexy", como muita gente. Mas eu amo falar francês, amo qua
ndo dizem que falo bem, apesar da eterna frustraçao de que é bem pouco provàvel que eu venha, um dia, a falar como uma francesa - sem sotaque*. A primeira vez que eu vi um sentido em estar aqui - e na época, trabalhando de babà - foi quando começadram a elogiar meu francês; foi como se, finalmente, esses meses em terra estranha com gente esquisita valesse alguma coisa: se nada der certo, eu falo francês! Claro que a coisa se dà em camadas e "niveis" de linguagem - se me botarem pra conversar com um malaco, que soh fale girias, eu vou ter dificuldade pra entender o que ele fala. Mas enfim, existem bem poucas coisas que a gente pode falar que aprendeu definitivamente, de uma vez por todas, sem precisar se aperfeiçoar. Ademais, esse é também o charme da lingua francesa: à primeira vista, muito "dura", muito formal, cheia de nuances e frescuras - mas, ao mesmo tempo, cheia de invençoes, de girias, de subversoes. Eu acho que as expressoes àrabes sao uma forma de subversao à lingua oficial, uma demonstraçao de que as dinâmicas sociais sempre escapam ao controle de fronteira. Ao mesmo tempo, sao também um indicio da nao-integraçao dos imigrantes; uma das minhas palavras preferidas, em francês, é bled, que vem do àrabe
"casa", e que eles - imigrantes e descendentes - usam quando dizem que vao pro pais de origem: "vou passar minhas férias no bled". Ou seja, de certa forma, a ligaçao com esse lugar de origem é forte - é a "casa" - pq eles nao se sentem integrados. Mas isso é outro assunto. Também adoro clebs (cachorro), que também vem do àrabe. E pra nao dizerem que eu fico puxando sardinha pro meu devir marroquina, também adoro mytho, mentiroso, que na verdade é abreviaçao de mythomane: mitômano. Parece palavra dificil, mas todos os adolescentes falam, e eu acho hilàrio: "você nao passa de um mytho!"

*Em relaçao aos sotaques. Uma vez um professor - de inglês - alertou a turma pra pronùncia de tal palavra (nem lembro qual), dizendo que, se a gente a pronunciasse de tal forma, as pessoas imediatamente saberiam de onde a gente é. Dai eu pensei, poxa, qual o problema disso? Eu tenho orgulho de onde eu venho. Quando os alunos no colègio riam de algum erro, eu repetia a mesma coisa - eu tenho orgulho de ser estrangeira. Mas é inevitàvel me sentir frustrada por às vezes confundir "in" e "an" - eu acho o som super parecido (foneticamente: [ɛ] e [ã]), mas pra eles é super diferente. E, pessoalmente, eu acho sotaque desleixado muito feio.


O outro lado da moeda é que os franceses tendem a achar que a lingua é deles, e que o sotaque é dos outros: dos canadenses, por exemplo, ou dos descendentes de imigrantes - que nasceram aqui e muito francês tem a coragem de comentar que ele tem um "sotaque estrangeiro" - se ele nasceu aqui, e se ele tem o francês como lingua-mãe, dizer que ele tem sotaque é o mesmo que retirar o direito dessa pessoa a ter uma lingua. E a lingua é dinâmica, ela nao é de ninguem, como pensam os franceses em um eterno delirio narcisista. Eh digno de nota que, quando um francês quer te atacar sutilmente, seja por brincadeira, seja por provocaçao, seja por maldade, ele te ataca pela lingua: "isso que vc disse nao é francês" (e muitas vezes EH, e eles dizem que nao pq sao fdp mesmo).


Mea culpa: eu jah utilisei o francês como forma de exclusão social, com uma menina que eu nao tinha ido com a cara. A sujeita vira pra mim e diz "eu jamais viria de au pair, trabalhar de mao de obra barata", soh faltou um "eca!". E como estàvamos entre franceses, e ela tinha chegado a pouco tempo, passei o tempo todo falando francês, o que de certa forma fez com que as outras pessoas também falassem (embora soubessem português), e ela ficou boiando na conversa

Mas ela mereceu.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

quando tudo vira desculpa

Mudei de tema de mestrado pq o tema anterior era teorico demais, e além do mais eu nao conseguia mais ficar falando de uma "França revolucionària" que hje nao é mais a sombra de si mesma. Um novo tema, que nao tinha nada a ver com o que eu tinha estudado antes, que era quase uma outra àrea, com bibliografias BASICAS que eu nunca tinha lido e referências que eu ainda sequer conheço. Leituras que nao me deixavam ler direito as leituras indicadas nas minhas aulas, e nossa, eu tenho muitas aulas, e trabalho ao mesmo tempo. Jah deu pra perceber que eu tô me fazendo de coitada? Dai assim, nossa, eu nao devia ter mudado de tema pq 1 ano é muito pouco pra fazer uma boa dissertaçao, e ademais tinha 3 anos que eu estudava o tema anterior! E nossa, pensando bem a academia é uma b** mesmo, quê que eu tô fazendo aqui, olha esse povo que vive numa bolha e que nao entende nada da vida real. Tudo isso é culpa da nossa forma de construir o conhecimento, e como assim ainda se fala em universalismo?, esses teoricos franceses falam muito dificil, é um saber produzido para se auto-reproduzir. E olha essas teorias sobre o sujeito? O sujeito soh pode ser aquele que nasceu na modernidade, capaz de reflexividade e etc... quer dizer que nos, bonitoes da bala chita, somos os unicos a produzir reflexao sobre nossa propria sociedade? *dai eu começo a namorar a antropologia e a arrumar desculpas pra ler Sahlins ao invés de ler o que eu jah deveria ter lido hà um mês atràs*.

Pensando bem, a culpa é do Ocidente. E olha ai o Sahlins pra concordar comigo!

Foi tudo um grande erro. Minha modesta conclusão é que a civilização ocidental tem sido largamente construída sobre a idéia equivocada da "natureza humana". (Por favor, desculpem; foi tudo um erro.) É provavelmente verdade, todavia, que esta idéia equivocada da natureza humana ponha em perigo nossa existência.
(Sahlins, 2007)

Esse mau-humor que se retroalimenta é uma maneira de lidar com a crise de "o que eu faço depois desse mestrado?", mas tb nao é soh isso, é tb um enorme saco-cheio de faculdade, aula, leituras por obrigaçao, e de um sistema que eu vejo cada vez menos como o meu. Dai eu penso em mim mesma aos 18 anos e meu discurso "eu nao vou fazer o que dà dinheiro, eu vou fazer o que eu gosto" e penso no que aconteceu de là pra cà. Talvez o que aconteceu é que o capitalismo tenha vencido (no caso, me vencido). Ou que nao quero dinheiro, eu soh quero amar seja um privilégio pra poucos, detentores de capital (seja aquele, econômico mesmo, seja aquele, acadêmico, das pessoas que parecem seguir trajetorias retilineas e sem desvios na universidade. Claro que muitas vezes os dois estao juntos, mas nem sempre). Ou talvez o problema nao seja aquela môme de 18 anos, mas esta de 25.

E eu nao sei como terminar esse texto, nem essa questão, tao interminàvel, et alors?

terça-feira, 31 de maio de 2011

you have a different opinion and that (should be) ok

Dia desses fui na casa de uma amiga franco-marroquina - e musulmana - que trabalha comigo, junto com outras colegas, uma delas franco-maliana e a outra francesa ("e soh"). Là pelas tantas, inevitavelmente, começou um debate sobre algumas idéias musulmanas - principalmente sobre a questao da mulher. Mas primeiro vamos dar nome aos bois, pelo menos aos personagens principais: vou chamar a franco-marroquina de N. e a francesa-bretona de G., pq seria mto toscao usar soh o referente nacional pra falar disso. G se co nsidera feminista, até ai tudo bem - eu partilho muitas das opinioes dela. O que me deixou meio que impressionada foi a maneira como ela se recusa a aceitar que N tenha uma visao diferente dela no que concerne conceitos bàsicos como "liberdade" e "igualdade", pra citar os chavões franceses. O que eu vi na conversa delas foi um ranço enorme de neocolonialismo que existe na cultura francesa. Pq o papo de "eu sou mais livre do que vc pq eu sou atéia e feminista" é super escorregadio, e dai pra "meus valores ao melhores dos que os seus" é um pulo (bem pequeno). Eu defendo valores que sao meus (e que sao inevitavelmente encharcados de pensamenos ocidento-centrista e euro-centrista) mas eu me sinto capaz de aceitar o fato de que alguém pode ter uma idéia do mundo totalmente diversa da minha, sem pensar que a evoluçao/ progresso natural da humanidade vai levar essa pessoa a pensar como eu. E principalmente, quem sou eu pra julgar os valores culturais dos outros? Eu sei que isso tomba pro relativismo, e isso é meio que inevitàvel - mas entre o relativismo e o universalismo, qual a melhor nuance? Eu me recuso a crer em papos do tipo "olha, minha filha, isso que vc chama de pudor, eu chamo de submissao... vem aqui que eu vou te emancipar, vem". Universalismo é tao perigoso, e a filosofia politica nao largou o osso até hoje - o que dà uma sensaçao de que academia nao serve pra nada mesmo. Serà que nao dà pra pensar uma forma de relativismo que seja rigida em relaçao a valores bàsicos? Sei là, multilar mulheres (soh pra citar um exemplo) nunca vai ser algo que eu venha a defender. Entao é complicado - como qualquer posiçao que tenda a um extremo.
Por falar em extremos, os da conversa foram bem estranhos. N sabe muito bem se defender, e a partir de um certo momento (acho que de saco cheio de G ser incapaz de tentar entender algo sem impor suas proprias categorias), disse algo como "ok, vou falar da mesma maneira que vc entao: todas as ocidentais sao putas, piranhas. Se vc acha que o que é diferente de vc é submissao, eu acho que o que é diferente de mim é putaria". Claro que ela nao tava falando sério, mas foi uma forma caricatural de mostrar que o "universalismo" tb pode existir do outro lado, ora bolas. Enfim, G apelou um pouco e chorou (!) e quis ir embora (!!) mas depois ficou tudo bem. Mas essa mania deles, francesinhos, de acharem que seus valores sao universais é foda - vide o fato de que qualquer um deles defenderà ferrenhamente a tal "laicidade" francesa, sem conseguir enchergar o quanto essa laïcidade é muito propria a uma certa "visao francesa" do mundo (que hje deriva pra islamofobia), e nao é, nao mesmo, uma visao neutra em relaçao às religioes.
E fiquei pensando, também (e pela reaçao apelativa dacolega) no quanto minha host estava certa quando me disse que Astérix é A cultura francesa em forma de desenho: a convicçao de estarem certos os leva a nao aceitarem perder. O que nao quer dizer que eles estejam certos de fato, mas que explica o por quê de eles serem tao mal perdedores - em discussoes e em jogos, mas talvez em revoluçoes também. RYZAS.