quarta-feira, 16 de novembro de 2011

da série "divagações sobre o nada"

Acho que a maioria - ou pelo menos boa parte - dos sobrenomes "ocidentais" (pq nao me arrisco a falar de mundo) surgiram da mesma forma: as pessoas, por alguma razão, se viram obrigadas a adotar um, e usaram a primeira coisa que veio na cabeça - do nome de uma àrvore a um apelido.

Quer dizer, os nobres adotavam o nome do lugar onde estavam as possessões territoriais deles, por isso aqui na França quando alguém se chama Fulano de TalLugar é quase certo que essa pessoa é nobre. Gosto de imaginar que isso começou pq o rei era tipo Silvio Santos e precisava saber da caravana de onde eram as pessoas de sua corte.

Bom, para os plebeus franceses os sobrenomes se tornaram obrigatorios no século XVI. O que eu acho divertido é que muitos sobrenomes vêem de apelidos originados de caracteristicas fisicas ou mesmo psicologicas da, digamos, "primeira pessoa da linhagem". No Brasil, eu tenho a impressão de que a maioria vêem de àrvores ou no màximo de profissoes. A gente nao vê muitos Zezinho ORuivo ou OLoiro ou essas coisas... E sempre que eu me deparo com um sobrenome do tipo por aqui, eu fico imaginando COMO era o tataravô dessa pessoa. Ok, Leroux (ORuivo) é fàcil, dã. Mas alguns sao muitos engraçados. Exemplos:

LE FORT ou LEFORT ("O Forte") - Fico imaginando o que seria um senhorzinho forte à la século 16. Obviamente, na minha imaginaçao, ele usa suspensorios e "mangas de camisa" coladjeenhas.

LAMOUREUX (pode ser "o apaixonado" ou "o amante") - Esse me deixa na duvida entre um bocoio e um amante latino.

JOLY ("bonito") - O famoso BONITAO DA BALA CHITA, ou em bom francês, beau gosse.

SAUVAGE ("Selvagem") - Quem pensou em Kaspar Hauser dà RT. O tataravô que iniciou essa linhagem era obviamente alguém com problemas de socialização.

LEPETIT ("Opequeno") - O anaozinho do vilarejo. Ou talvez "outra coisa" fosse pequena e, como vilarejo é vilarejo, todo mundo ficou sabendo. Paia, hein.

LEGROS ("Ogordo") - alguém que sofria muito bullying no século 16.

PODEVIN ("CopoDeVinho") - aquele cara que vivia nas tarbernas arrumando confusão.
Bom, ok, na verdade a expressão "pot-de-vin" em francês se refere a transaçoes ilicitas, tipo uma propina, mas eu prefiro a versao do tataravô tomando todas.

PARADIS ("Paraiso") - Pra quê vc apelidaria alguém de PARAISO se nao fosse pra jogar um caôzinho? Acho que em português seria Zezinho ColirioParaOsOlhos.


Etc etc etc... esses sao soh alguns exemplos, de sobrenomes que eu realmente vi. Diz a lenda que tem coisa bem pior que isso, mas enfim. Outra lista possivel seria com nomes que soam engraçados em português - o sobrenome de uma das minhas chefes era DACALOR e eu nunca consegui dizê-lo sem pensar WTF?!.

Agora imagina se no Brasil alguém resolve refazer o cadastro civil... SOUFODA seria o novo Silva e POPOZUDA o novo Souza. Certeza. *_*

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

the cryin' day

O dia de renovar minha autorizaçao de residência sempre foi meu dia de chorar. O drama jah faz parte do meu ser, mas ele piora ainda mais quando eu me vejo submetida a um exame de "boa imigrante". Eu me sinto uma vaca, um pedaço de carne a ser avaliado, pra que "eles" decidam se eu sou boa o suficiente pra ficar no pais deles. O que é especialmente degradante quando vc acha que o pais deles tà longe de ser là essas coisas, e pohan, se enxerguem.
Enfim, pra completar minha vida de maria do bairro, as pessoas do atendimento sao super grossas.

Dai o que rola? Eu começo a sentir uma mistura de raiva, degradaçao, vontade de dizer umas verdades na cara deles... e basta ouvir um "esse documento nao serve" dito com grosseria, que eu, numa atitude muito madura, abro a boca pra chorar.


Mas esse ano eu decidi que nao ia chorar. Chega. Eles nao merecem minhas làgrimas (diria Maria do Bairro, con mucha honra).

Fui na prefeitura hoje de tarde.
Primeiro, a disgrama da funcionària implica com minha foto. E pq?! Pq eu tava com uma echarpe. Nao, nao era na frente do rosto como uma burqa.
Era uma FUCKING echarpe no pescoço que nao tampava nada.
- "Mas moça, a foto da minha autorizaçao de residência do ano passado também tem uma echarpe, olha soh".
- "Ah mas esse ano eles nao querem mais. Vc vai ter que fazer outra".
Meu, se fuder. E eu, ainda por cima, acabei de gastar 5 euros pra
tirar essa foto hoje de manha. Mas ok, liguei o foda-se.

Ela checa meus documentos. Pra nao ter problemas, meu namorado me faz uma atestaçao de "prise en charge", que quer dizer que ele assegura minha sobrevivência por aqui. O que nao é verdade pq eu trabalho e isso é soh pra eles nao
encherem o raio do saco. A gente sempre fez assim, desde o final de 2009, pq a gente sabe que eles podem implicar com qualquer coisa (por exemplo, meu atestado de residência começa em janeiro e um dos meus contratos anteriores terminava em fevereiro. Ele ia ser renovado, mas eu nao tinha nenhum documento me dando certeza disso, e eles poderiam nao aceitar.) Eu sempre achei que um atestado assinado por ele seria mais garantido.
Mas dai, tcha-tchan, ela me pergunta: "Você tem um extrato de conta? Pra comprovar que ele te dà dinheiro todo mês".
Fudeu. Claro que ele nao me dà dinheiro.
Dai eu invento uma desculpa qualquer, digo que eu trabalho mas que também sou "prise en charge", enfim com certeza ela nao acreditou pq eu vou ter que voltar là soh em dezembro e levar todos os documentos de novo. Eu aguentei firme e nao chorei. Inclusive fui educada-cinica, perguntando coisas do tipo "senhora, posso saber a razao de pedirem me extrato de conta?" com uma vozinha finiiinha. Meu foda-se tava no 150%. Nem o fato de que eles tiraram essa "regra" do rabo me abalou (pq hello, eu faço o mesmo procedimento desde 2009). Nem o fato de ela afirmar que eu TINHA que saber - e estar prevenida - que eles iam pedir o meu extrato pq no computador secreto deles tava escrito que eles iam me pedir, e se tava escrito é pq CERTAMENTE eu jà estava prevenida. Nem o fato de eu ter planejado férias na Turquia na data em que ela me deu novo rendez-vous. Nem o fato de que quando eu perguntei o que aconteceria se eu marcasse uma data em janeiro - quando minha autorizaçao de residência estaria vencida - e se eu ia ter problemas pra receber meu salàrio, ela tenha dito que o problema era meu e nao dela.

Nao me abalei. Orgulhosa de mim mesma, liguei pro meu namorado pra avisar que sifu com as férias na Turquia e me dou conta de que minha autorizaçao de residência desse ano nao tava comigo. Volto no guichê, pergunto pra funcionària - vamos chamà-la de SORAYA -, ela disse que nao està com ela. Eu refaço o caminho até onde me dei conta que nao tinha o documento, nao encontro, volto no guichê de Soraya, esvazio minha bolsa, pergunto moça o que eu faço?. Soraya vira e diz que ELA SABE QUE ME DEU O DOCUMENTO e que POR ISSO NA ESTA COM ELA. Vontade de virar uma bifa. Eu saio, refaço o caminho, volto, pergunto pras pessoas no atendimento e...
começo a chorar.


Come on, era muito pro meu controle emocional. Mas tenho certeza que foi uma armaçao da virgenzinha de guadalupe (/maria do bairro) que gosta de me ver chorar, nao é possivel.

No fim das contas, um senhor do atendimento chegou e me entregou meu documento, dizendo, vejam bem "que ALGUEM deu pra ele e ele nao sabe quem é".
Normalmente eu nao sou de acusar as pessoas assim, mas foda-se a presunçao de inocência. Certeza que foi a Soraya.

Moral da historia?

Esse povo nem deixa a gente sofrer em Paris em paz.

P.s.: Fotos meramente ilustrativas. A fila da prefeitura de Paris é diboassa se comparada com umas outras que eu jah vi por ai.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

versão rugby-supporter-wannabe

Eu amo futebol. Amo o jogo e, acima de tudo, amo a efervescência coletiva que o jogo gera. Quanto ao Rugby, até vir pra França tava mais pra "nunca vi nem comi, eu soh ouço falar". Sei là, nao me interessava. Mas aqui muitas pessoas adoram, e a primeira coisa muito bacana que eu ouvi falar do esporte é que apesar de ser muito fisico, as pessoas se respeitam muito. Tipo, é muito raro ver briga entre torcidas; as pessoas vivem mais um espirito de encher a cara juntos, o que marca uma superioridade incontestàvel em relaçao ao futebol. Nao me perguntem como eles conseguem isso: fazer um esporte visualmente "violento" - pra quem vê de fora e nao entende bulhufas - gerar tanto fair play entre os torcedores.

Mas enfim, entre achar legal e se interessar hà uma certa distância. Eu demorei a realmente querer ver uma partida de rugby, até que me mostraram A coisa mais legal do rugby: o HAKA. Nao saberia descrever o haka em termos precisos, mas é uma forma de desafio ao adversàrio feito por equipes de paises com uma forte tradiçao maori - caso da Nova Zelândia, Samoa, Ilhas Fiji, etc.

Vejam o sensacional haka da Nova Zelândia e entendam pq eu amei esse esporte antes de ter assistido a uma partida sequer:



A Nova Zelândia é a melhor equipe de rugby do mundo. Eles sao conhecidos como All Blacks, pq o uniforme é preto - segundo eles, pq portam o luto pelo adversàrio.
O cara que grita no inicio do haka tem que ser obrigatoriamente um jogador de ascendência maori.
Quando sao duas equipes de tradiçao maori que jogam, uma desafia a outra com seu respectivo haka. Mas quando a equipe adversària nao tem haka, os jogadores assistem lado a lado - eu amo ver as expressoes nao verbais dos dois lados. A cara de desafio dos jogadores fazendo o haka é totalmente excelente.

Fiquei super interessada depois de ver o haka e assisti a alguns jogos, mas o rugby é bem dificil de entender - e se o jogo for ruim, ele pàra toda hora e é super dificil de manter o foco. E existem mil regras. Entao fui tomando gosto pela coisa aos poucos.

E pq eu tô falando disso tudo? Pq tà rolando a Copa do Mundo de Rugby, exatamente na Nova Zelândia, e eles fizeram o um jogo sensacional contra a França que me converteu em fã do esporte de maneira definitiva. Te contar que eu ainda nao entendo a maioria das regras viu, mas dà pra seguir o jogo sabendo como se fazem pontos e quais os principais passes proibidos.

E olha, nessa Copa eu sou Nova Zelândia desde criancinha!



Update:

Outro haka dos all blacks... eles têm dois diferentes, este é mais recente e geralmente usado para equipes com as quais a rivalidade é mais forte.


Sério, como nao amar?!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

I don't want to stay here


Esse é o terceiro post em menos de um mês, o que é um milagre hà tempos não visto. Soh pra continuar com aquela coisa de manter o blog, posto umas fotos do sudeste da França. Mais
especificamente, de Cassis e do mar mais azul que eu jah vi.
Tenho um amigo que odeia afirmaçoes assertativas sobre os lugares/paises/nativos - tipo "Paris EH assim", "Roma EH assado", "os franceses SÃO assim". Convenhamos, a gente soh tem um minimo de embasamento pra falar disso se morar no lugar, mas de forma alguma de tiver ido soh visitar. O que a gente ACHA de um lugar sao soh impressões muito pessoais.
Eu concordo muito com ele. Dito isso, devo dizer que eu amo o sul da França. Com o devido background de "essas sao as impressoes de alguém que soh passou alguns dias por là". Jah tinha ido ao
sudoeste também. O Sol, as cores, as pessoas mais legais... Me fazem sentir que eu fui enganada, que eu cai na cilada de vir pr'um lugar tao cinza cujo verao é mais frio do que o fucking inverno de BH. Dà pra respeitar lugar assim? Não, não dà. Viva o sul e seu verão com temperaturas acima dos 30°C, como deve ser!


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

soh por postar

Vou tentar manter esse blog minimamente digno e postar com mais frequência, como disse a Olévia, nem que seja um video.
Entao: ESSE VIDEO EH OTIMO! Se chama "historia das coisas", e propoe uma reflexão sobre nossos hàbitos de consumo e nosso papel na cadeia produtiva. Pode parecer meio que "consciência ambiental para principiantes", mas o bacana dele é, exatamente, a simplicidade.


Notem que hà uma critica à forma como os paises desenvolvidos se aproveitam do "terceiro mundo" como se fosse o quintal deles. Eh uma pena que seja abordado tao pouco (ao mesmo tempo, nao é exatamente o foco principal do video), mas é algo serissimo... esses dias vi uma reportagem sobre a compra de grandes extensoes de terra em Moçambique, algo que provavelmente vai prejudicar muito as pessoas que trabalhavam hà décadas nessas terras, e os compradores eram, tchan-tchan, fucking brazilian landlords. Hà casos de universidades americanas praticando a mesma coisa. Mas o Brasil é fueda né? Um pais que sofreu sendo quintal alheio e que soh espera a primeira oportunidade pra fazer um quintalzinho num pais mais fraco.

Mas enfim, voltando ao foco, vejam o video :)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

french navy


Um dia vou conseguir escrever sobre minha relaçao de amor e odio com a França. Mas morando aqui, algo em relaçao ao qual eu realmente adquiri afeto foi a lingua francesa. Eu nem sei explicar, pq eu sempre preferi o italiano, e nao acho o francês super bonito nem "sexy", como muita gente. Mas eu amo falar francês, amo qua
ndo dizem que falo bem, apesar da eterna frustraçao de que é bem pouco provàvel que eu venha, um dia, a falar como uma francesa - sem sotaque*. A primeira vez que eu vi um sentido em estar aqui - e na época, trabalhando de babà - foi quando começadram a elogiar meu francês; foi como se, finalmente, esses meses em terra estranha com gente esquisita valesse alguma coisa: se nada der certo, eu falo francês! Claro que a coisa se dà em camadas e "niveis" de linguagem - se me botarem pra conversar com um malaco, que soh fale girias, eu vou ter dificuldade pra entender o que ele fala. Mas enfim, existem bem poucas coisas que a gente pode falar que aprendeu definitivamente, de uma vez por todas, sem precisar se aperfeiçoar. Ademais, esse é também o charme da lingua francesa: à primeira vista, muito "dura", muito formal, cheia de nuances e frescuras - mas, ao mesmo tempo, cheia de invençoes, de girias, de subversoes. Eu acho que as expressoes àrabes sao uma forma de subversao à lingua oficial, uma demonstraçao de que as dinâmicas sociais sempre escapam ao controle de fronteira. Ao mesmo tempo, sao também um indicio da nao-integraçao dos imigrantes; uma das minhas palavras preferidas, em francês, é bled, que vem do àrabe
"casa", e que eles - imigrantes e descendentes - usam quando dizem que vao pro pais de origem: "vou passar minhas férias no bled". Ou seja, de certa forma, a ligaçao com esse lugar de origem é forte - é a "casa" - pq eles nao se sentem integrados. Mas isso é outro assunto. Também adoro clebs (cachorro), que também vem do àrabe. E pra nao dizerem que eu fico puxando sardinha pro meu devir marroquina, também adoro mytho, mentiroso, que na verdade é abreviaçao de mythomane: mitômano. Parece palavra dificil, mas todos os adolescentes falam, e eu acho hilàrio: "você nao passa de um mytho!"

*Em relaçao aos sotaques. Uma vez um professor - de inglês - alertou a turma pra pronùncia de tal palavra (nem lembro qual), dizendo que, se a gente a pronunciasse de tal forma, as pessoas imediatamente saberiam de onde a gente é. Dai eu pensei, poxa, qual o problema disso? Eu tenho orgulho de onde eu venho. Quando os alunos no colègio riam de algum erro, eu repetia a mesma coisa - eu tenho orgulho de ser estrangeira. Mas é inevitàvel me sentir frustrada por às vezes confundir "in" e "an" - eu acho o som super parecido (foneticamente: [ɛ] e [ã]), mas pra eles é super diferente. E, pessoalmente, eu acho sotaque desleixado muito feio.


O outro lado da moeda é que os franceses tendem a achar que a lingua é deles, e que o sotaque é dos outros: dos canadenses, por exemplo, ou dos descendentes de imigrantes - que nasceram aqui e muito francês tem a coragem de comentar que ele tem um "sotaque estrangeiro" - se ele nasceu aqui, e se ele tem o francês como lingua-mãe, dizer que ele tem sotaque é o mesmo que retirar o direito dessa pessoa a ter uma lingua. E a lingua é dinâmica, ela nao é de ninguem, como pensam os franceses em um eterno delirio narcisista. Eh digno de nota que, quando um francês quer te atacar sutilmente, seja por brincadeira, seja por provocaçao, seja por maldade, ele te ataca pela lingua: "isso que vc disse nao é francês" (e muitas vezes EH, e eles dizem que nao pq sao fdp mesmo).


Mea culpa: eu jah utilisei o francês como forma de exclusão social, com uma menina que eu nao tinha ido com a cara. A sujeita vira pra mim e diz "eu jamais viria de au pair, trabalhar de mao de obra barata", soh faltou um "eca!". E como estàvamos entre franceses, e ela tinha chegado a pouco tempo, passei o tempo todo falando francês, o que de certa forma fez com que as outras pessoas também falassem (embora soubessem português), e ela ficou boiando na conversa

Mas ela mereceu.